Alimentação Saudável: além do prato, dentro da realidade da família

Por: Brenda Araujo CRN:42485

Quando pensamos em alimentação saudável, é comum vir à mente a imagem de um prato colorido, cheio de frutas, verduras, legumes e alimentos variados. Mas para muitas famílias que têm crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), esse ideal nem sempre é possível.

A verdade é que a alimentação não se resume a nutrientes: ela envolve rotina, vínculos e experiências emocionais. Quando há um contexto de seletividade alimentar, o que vemos na prática é que a criança pode se apegar a um número muito limitado de alimentos, repetindo sempre as mesmas escolhas. Isso não acontece porque ela “não quer comer direito”, mas porque há fatores importantes envolvidos.

Em crianças com TEA, por exemplo, a seletividade pode estar ligada a alterações sensoriais e do neurodesenvolvimento. Isso significa que texturas, cheiros, cores ou até a forma como o alimento é apresentado podem gerar incômodo intenso e levar à recusa. Além disso, é comum que haja uma rigidez comportamental, ou seja, a tendência de se prender a rotinas e alimentos já conhecidos. Essas crianças costumam preferir alimentos industrializados por terem sempre o mesmo sabor, o que contribui para a rigidez alimentar que alguns possuem.

Pesquisas mostram que a seletividade alimentar é mais frequente em crianças com TEA do que em crianças com desenvolvimento típico. Segundo estudos a seletividade alimentar acontece em 25% das crianças com desenvolvimento típico e ocorrem em até 80% daquelas com atraso no desenvolvimento.

Mas o que é, afinal, uma alimentação saudável?

Quando olhamos para esses desafios, fica claro que a ideia de um “prato perfeito” não se aplica a todas as realidades. E isso não significa que a família esteja falhando. Pelo contrário: é justamente nesse contexto que precisamos ampliar o conceito de saudável.

Alimentação saudável não é apenas o que está no prato, mas também o que acontece ao redor da mesa:

  • É saudável quando a refeição acontece sem brigas e punições.
  • É saudável quando a criança consegue explorar um alimento novo, mesmo que seja apenas tocando ou cheirando.
  • É saudável quando a família encontra maneiras criativas de incluir novos alimentos dentro das possibilidades da criança.
  • É saudável respeitar os limites sensoriais da sua criança.

Um estudo de revisão publicado no Nutrients (Cermak et al., 2020) reforça que intervenções baseadas em exposição gradual e apoio positivo da família são mais eficazes do que estratégias punitivas ou de pressão alimentar. Ou seja, o caminho para uma alimentação saudável em crianças com seletividade passa pela paciência, acolhimento e constância.

E é justamente nesse ponto que entra o papel do profissional. Como nutricionista especializada na área e no tratamento de dificuldades alimentares em crianças com TEA e TDAH, estou pronta para auxiliar cada família a lidar com os desafios da seletividade e a manejar possíveis deficiências nutricionais, prevenindo maiores prejuízos no crescimento e no desenvolvimento da criança. Além disso, ofereço suporte terapêutico através da terapia alimentar para que a alimentação se torne um recurso a favor do desenvolvimento global da criança, e não uma fonte de estresse no dia a dia.

Para famílias de crianças com TEA e TDAH, falar sobre alimentação saudável é falar sobre processos, não sobre perfeição. É sobre respeitar a realidade da criança e caminhar passo a passo, valorizando os progressos.

A saúde não está apenas nos nutrientes ingeridos, mas também na relação positiva com a comida, com a família e com o momento da refeição.

Referências:

  • Ledford, J. R., & Gast, D. L. (2006). Feeding problems in children with autism spectrum disorders a review. Focus on Autism and Other Developmental Disabilities, 21(3), 153–166. doi:10.117 /10883576060210030401
  • Cermak, S. A., Curtin, C., & Bandini, L. G. (2020). Food Selectivity and Sensory Sensitivity in Children with Autism Spectrum Disorders. Nutrients, 12(5), 1593.